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Etérea realidade atempórea.

Desci a escada desnorteado. Não sabia bem ao certo se era minha casa, se era um lugar conhecido. Se era dia ou noite. Um brilho na janela redonda me cegou por um breve instante. Havia algo de estranho com aquele chão de madeira irregular. Por que não sentia o cheiro de madeira nova? Por que ele não rangia mais? Por que eu não sentia mais as ranhuras entre as tábuas porcamente acentadas? Por que não era mais frio e quente ao mesmo tempo? Por que eu não sentia os pequenos grãos de areia que minha mãe tanto lutou em varrer e aspirar durante a vida toda?
De repente nada disso fazia mais diferença. Não sentia o peso do meu corpo em cima dos meus pés, e isso era o fato preocupante. Senti como se flutuasse sobre os degraus, mesmo quando os tocava brevemente e seguia escada abaixo. Estaria sonhando? Caindo?
Onde estavam os malditos grãos de areia que sempre senti quando descia no meio da noite escura e fria, pra ver a lua da janela da sala da lareira? Era como se meus pés estivessem dormentes e não fossem acordar desse sono profundo tão cedo. Profano. Profundo. Profanado. Roubado. Dilacerado. Um sono etéreo e eterno, dilacerado por grãos de areia invisíveis que se foram, como que por mágica, deixando um torpor inquietante. Enigmático.
Torpor este que, sem pedir licença, tomou conta das pernas e invadiu o âmago como se pedisse licença ao adentrar um velho casebre abandonado em ruínas, numa colina íngreme ao fim de uma estrada solitária. No horizonte, um oceano de incertezas turbulento e impenetrável. Abaixo, um abismo onde ondas destroem rochas e banham os pés que não sentem mais a areia da escada.
Num suspiro, corro as unhas da mão direita, sem anéis, pálida, pela tinta surrada da parede, procurando suporte pras pernas que desfalecem antes da consciência esvair-se.
A areia que deveria existir faz falta. Faz? Não faz. Deveria fazer. Ela sempre esteve ali. Sempre soube que iria sentí-la, mesmo não gostando de tê-la. Imaginei como seria olhá-la tão de perto. Que mistérios cercariam tais pitorescos e curiosos vestígios de locais, possivelmente, tão distantes. Talvez, do mesmo penhasco. Do mesmo oceano de incertezas.
Por momentos, permito-me esquecer do mundo ao redor. Desprender-me de passado, presente, e tentar encontrar o meu mundo, n’um grão de areia.
Parece tão vasto e infinito.
Um grão de areia…
O meu vasto, atemporal e infinito…
Mundo meu…

Publicado em.vida.cotidiana.

2 Comentários

  1. Digitaê, caraio?
    huahauhauha XD
    Mas que graça! =D

    Continua ficando inspirado desse jeito que eu vou continuar entrando!=)

    Aliás, vou te propor algo! Se vc conseguir que eu me identifique mais no próximo, eu entro sempre! =D

    Boa noite!
    beijos! :*

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