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.heaven.and.hell.

“Então, vamos ao Anima Mundi?”

Sentia dores no corpo. Dor de cabeça e uma tosse louca que me fazia gemer involuntariamente.

A resposta era não. Acabei cedendo.

Aí começa o inferno, ao som de Barbra Streisand no iPod. Linha de trem Esmeralda, da CPTM, maravilhosa. Apesar de lotada indecentemente abarrotada, tinha ar condicionado. Bom, acaba por aí a maravilha. Uma senhora muito educada tossia botava os pulmões a fora do outro lado do trem, o que gerou um círculo involuntário à sua volta e um esbodegamento de gente do outro lado do vagão – onde o imbecil aqui se encontrava.

Sentia um guarda chuva no meu rim direito, um pé em cima do meu pé esquerdo, uma bolsa na minha terceira costela esquerda, uma bunda gorda e quente esfregando na minha nádega esquerda e, suspeito, uma mão perdida na minha coxa direita, vinda de alguém um filho da puta sentado à minha frente.

Disputávamos um pedaço de cano para segurar. Meus dedos estavam esmagados debaixo de uma sacola alheia que parecia carregar tijolos. Tudo parecia passar muito lentamente pela janela. E passava. Um ciclista ultrapassou o trem exatas 16 vezes durante todo o trajeto. Tentei me ater à contagem e não imaginar quem poderia estar com a mão na minha coxa, uma vez que não conseguia me mover para descobrir.

Algo cheirava mal nessa história. E nem era o Rio Pinheiros que acompanhava a linha. Alguém havia vomitado no trem. Subitamente tudo mudava de configuração. Pessoas se amontoavam, corpos se esfregavam em gritos e caretas. Pelo menos a mão alienígena havia deixado de desejar abstrair sexualmente minha coxa.

Tudo parecia um pesadelo sem fim. Respirei e tentei abstrair a realidade. Praticamente em vão.

Presidente Altino. Chegado o destino. Basta apenas descer, pegar o outro trem e seguir à Barra Funda. O que poderia dar errado?

Oito minutos para me aproximar da escada rolante. Sim. Era bom demais pra ser verdade. Uma multidão se estapeava para chegar à única escada que funcionava. Pensei por um momento em aguardar, mas imaginei mais um trem igual ao que havia pego chegando à estação. Seria o dobro de pessoas para metade da escada. Respirei fundo, encoxei uma velhinha na minha frente e fomos em frente.

Quando pensei que nada mais poderia piorar, descobri a Linha Diamante.

Ao entrar no vagão, notei cinco marcas de bala na porta ao meu lado. Pessoas sentadas no chão, pessoas em pé se esmagando entre as poltronas onde já haviam pessoas sentadas. E o calor. Sentia tanto calor que podia assar um frango entre as minhas pernas.

Alguém pedia berrava por dinheiro do outro lado. Tentei colocar meus fones de ouvido para abstrair a situação. Nem Barbra conseguia me transportar para outra realidade. Pensei em pular pela janela, quando vi (e pasmei, óbvio) um pedaço da lua entre os prédios de arquitetura diferente da que conheço em meu humilde mundo Zona Sul e voltei à realidade.

Onde estariam os políticos nesse momento em que o povo virava um monte de merda assada?

E citou Jô Soares nesse momento: “Covarde é alguém que, em uma situação perigosa, pensa com as pernas.”

Eu só pensava na minha inocência perdida.

E na vontade de berrar e sair correndo para o meu quarto…

Publicado em.vida.cotidiana.

4 Comentários

  1. Tiakinho Tiakinho

    Olha q aventura gostosa! História pra contar aos netos: "no meu tempo, era tudo mto melhor.."
    AHhahaha

    o inferno é na Terra e, pelo visto, em SP.

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