E o tempo continuava passando. Parecia que ia explodir. Seu nariz sangrava, seus olhos, inchados, deixavam transparecer em lágrimas a dor da perda. Não sabia ao certo para onde ia, apenas andava. Seus passos, tortos e tortuosamente traçados pelas linhas da calçada suja, deixavam para trás seus maiores erros. Seus piores erros. Por que havia deixado tudo chegar a esta situação? Perguntava-se, enquanto tentava ajeitar a roupa ainda colada ao corpo molhado pelo banho forçado. O dia começava a clarear. A madrugada gélida castigava em rajadas de vento. O sangue continuava pingando. Seria efeito do que descobrira, horas antes? Não cicatrizava. Havia sido apenas uma discussão. Nada além disso. O que diria à polícia? Já teriam adentrado o quarto? Já o teriam encontrado? Atravessava cruzamentos como se fossem desertos. Trombava em pessoas como se fossem paredes. Deixava-se levar a lugar algum, como se fosse chegar. Suas meias estavam amarrotadas. Seus pés doíam. De relance, percebeu suas mãos ensanguentadas de tentar estancar o incessante fio que descia do nariz. Deveria ter lutado antes. Devia tê-lo empurrado quando teve a chance. Devia ter fugido antes da meia noite. Nada mais fazia diferença. Sabia que cedo ou tarde seria encontrado. Seriam encontrados. Começou a correr. O dia clareava. Ainda sentia o gosto do vinho misturado ao sangue. Ao primeiro raio de sol, escondeu-se. Pensou se poderia passar o resto dos dias ali, naquele beco, fingindo ser um mendigo, um pedinte. Sua única certeza era de que passaria o resto dos dias recluso. Aprisionado em si mesmo, em seus atos, em sua justiça ferrenha. Sobreviveria à vergonha do passado? Enfrentaria a verdade do presente? Por um momento, encolheu-se como um feto abortado pela sociedade. Sentiu-se abortando-se de si mesmo. Sentiu o sangue. Sentiu medo. …
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